Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta
Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade
Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguem me esqueça
(Chico Buarque)



Nick: Luka
Gênero: Mulher (tá)
Idade: 23 anos
Moro: Toronto, Canadá
Faço: Psicologia(afe!)
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É dificil defender, só com palavras, a vida

24.2.06

Então, você percebe que você é sim melhor que algumas pessoas. Essa coisa de ¿somos todos iguais¿ é uma grande merda, afinal, você se esforçou tanto e levou tanto tempo para ser quem você é. Você não pode ser exatamente igual a qualquer babaca por aí.

Você se dá conta também que não tem mais como avaliar as pessoas pelas aparências. Porque simplesmente não dá pra ser uma advogada hiper-foda de direito humanos e andar de coturnos e correntes. (Ok, exemplo exagerado).

( Você também conclui que gosto musical não é marca de qualidade. Que não faz mal ouvir uma música só pelo ritmo, pra se animar, ou pela companhia. E que existem boas músicas em todos os estilos)

Até mesmo por que você acha extremamente normal os seus comportamentos variarem dependendo do lugar e das pessoas. E pra falar a verdade, você até prefere escolher o que e pra quem se abrir. Não há nada de falso nisso, é apenas uma questão de adaptação para a sobrevivência. Veja bem, eu disse comportamentos e não personalidade.

Você pára de manter uma ¿contabilidade de favores¿, mas isso não signifique que você tenha uma amnésia permanente. O drama até pára, mas a sensibilidade continua- você simplesmente descobriu a tecla ¿foda-se¿.

Um dia você passa a gostar de rotina e horários( e organização). Quer dizer, se a tal rotina e horários te derem mais tempo para fazer outras coisas mais interessantes. É meio louco, mas você gosta de ter uma rotina exatamente para ter o prazer de quebra-la.

Você abandona alguns sonhos, sem dor alguma. Outros sonhos, você transforma em planos. E até repensa alguns dogmas, mas que só virarão planos quando e como você quiser. E tudo parece tão normal.

Em alguns dias, você se sente velha demais. Velha demais pra começar ¿tudo¿ de novo, para algumas incertezas e desilusões. E tudo o que quer é segurança e um lugar quente e calmo.Dane-se o novo: foda-se a pérola, eu quero apenas viver. Esses dias de velhice passam são cheios de indiferença, e ¿e daí¿s ¿: tudo é igual, tudo é cinza.

Noutros dias, é como se você tivesse nascido com os seus vinte e tantos anos. Tanto pra se fazer e descobrir, um mundo cheio de possibilidades. Tanto que precisa ser mudado, e o relógio digital que rouba cada segundo ( a analogia não é minha). Tanta coisa que você não sabe distinguir o que é real, do imaginado, do futuro, do passado. E o sol brilha, e os passarinhos cantam, e você até dança na praça.

Você entende melhor o que sente, e o que pode fazer para mudar essas emoções. Você se entende o bastante para saber que não pode julgar os outros ,isto é, se eles não forem completos babacas. Você é melhor do que algumas pessoas sim, mas deus-te-livre de se pensar perfeita!

Luka Os outros


15.2.06


Talvez eu deva queimar todas as fotos e mementos da minha infância. Apagar todos os amigos antigos da minha agenda também. Reprimir memórias de um passado doce. E só lembrar da família no natal.

Talvez eu deva deixar meu cabelo crescer, usar maquiagem e salto alto.
Me contentar com um emprego na limpeza. Dividir uma casa(com alguém que eu odeie) em algum bairro dominado por gangues e mobiliar a casa com móveis do lixo.

Talvez eu deva esquecer como se escreve. Desprezar livros ,exposições, teatro, e filmes que não me façam rir. Claro, esquecer sushis, creme brulles e salmões defumados. E só ler jornais de crimes e esportes.

Talvez eu deva me casar com O primeirO idiota que aparecer- afinal, beggars cannot be choosers(tradução tosca: em cavalo dado não se olha os dentes). Obvio, ter filhos com a cara do desgraçado- por que o que mais uma mulher faria? E encontrar uma igreja, de preferência uma que use frase feitas e flores de plástico.

Talvez eu deva esquecer que a Europa e New Orleans existem. Que francês, italiano e japonês são línguas. Que rotinas podem e devem ser quebradas. Que é possível se sentir bem entre pessoas e lugares. Que eu tenho um cérebro, e planos importantes pra mim.

Assim, quem sabe, eu não ganhe uns pontos no meu cartão de karma.

Luka Os outros