Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta
Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade
Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguem me esqueça
(Chico Buarque)



Nick: Luka
Gênero: Mulher (tá)
Idade: 23 anos
Moro: Toronto, Canadá
Faço: Psicologia(afe!)
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É dificil defender, só com palavras, a vida

28.1.06


(Sim, graças, eu tenho pessoas assim na minha vida.)
Quero pessoas que gostariam de ter a vida que eu tenho. Quem ¿trocaria de lugar¿ comigo sem problema algum. Mesmo sabendo dos defeitos, mesmo tendo ouvido todas as reclamações, mesmo sabendo que falta uma porção de coisas. É preciso não ter pena - pois ter pena é simplesmente não querer estar na pele do outro. Só é necessário estar disposto a ser eu por um tempo: meu dia-a-dia , pensamentos, ambientes, emoções, delimitações, corpo e aparência.

Só quero também quem eu possa e consiga admirar. Não a admiração seca e altiva de um pedestal- mas cara- a- cara, dia-a-dia. Quem eu gostaria de ser, e que entendam essa minha vontade. E o mais importante- que acreditem que eu consiga. Preciso de pessoas que planejem comigo os meus sonhos.

Preciso de quem me espere, uma espera ativa, crescer ¿ e que eu também possa ensinar algo num processo mutuo. É fácil procurar pelo produto final, só que o produto final e perfeito pode ser amargamente independente.

Quero quem procure sempre entender o que se passa. E tenha a audácia de me contrariar e ter raiva de mim. Ou melhor, que (ás vezes) gastem energia brigando comigo e apontando erros - melhor do que indiferença, melhor do que ¿deixar quieto¿ pois ¿sabe que não vai adiantar nada¿.

E aceitem o pouco que eu posso oferecer em troca- e que fique subentendido que tudo o que quero , é o que procuro fazer ( não necessariamente esperando algo em retorno).
Não, isso tudo não é esperar demais. É só o diferencial de quem é especial pra mim.

Luka Os outros


27.1.06

No espelho.
Antes, me olhar no espelho me estilhaçava. Não olhava, tinha medo. Espelhos que guardam as memórias dos mortos. Espelhos que guardam as minhas memórias.

Eu me olho no espelho, e a vejo. Espelhos de memórias, de vontades, do futuro.
Me olho, e tento descobrir em mim os caminhos do olhar dela. Pois os toques, os beijos, o cheiro e sensações ainda estão comigo. Lembro, e percorro caminhos com dedos.

Espelho que se transforma num lago de saudades. Que me permite me olhar nos olhos e ver uma faísca de querer se alastrando pelo resto de mim. Saudades tão afiadas como um pedacinho de vidro prateado quebrado.

Amor-luz, amor ¿raio. Amor refletido, correspondido, ninado, alimentado.. Sentimento que não está aprisionado em fotos, mas livre como imagens num espelho. Sempre comigo, como a minha própria imagem. Tranqüilo, mas capaz de me fazer descobrir emoções fortes. Tecido cautelosamente, e por isso tão aconchegante, tão certo. Amor que não é apenas amor.

Luka Os outros




Conto: Palavas apenas.

E quando estávamos quase saindo, ela pegou minhas mãos e as beijou. Foi um gesto tão cavalheiresco e feminino, algo tão calmo e centrado, que me pegou de surpresa.
Lembro-me de pequenas cenas, conectadas por muito prazer. Como me mordeu o pescoço, e numa supressa, descobriu o meu cabelo. Suas mãos quentes cobrindo exatamente os meus seios, e depois, a língua intumescendo os bicos. Chupando, lambendo, mordiscando. O olhar d¿um fogo tremendo, a pele quente se misturando com a minha. Minhas mãos encostadas no seu pescoço durante o beijo demorado. E depois, descendo pelas costas. Tapinhas na bunda, dedos brincando em áreas sensíveis, pernas que se abrem - se abrem para mim.

A timidez que me fez ficar parada enquanto ela me pedia pra dançar. Luzes apagadas, eu de costas pra ela, eu começando a me movimentar aos poucos. Não esperava que ela se achegasse, e dançássemos juntas. Nuas no escuro. A próxima cena, ela me prensando contra a parede. Fusão total. Eu não sabia o que ela fazia, só sentia seus seios contra os meus, seus olhos, sua força. Eu não sabia se estava gritando, gemendo ou se tudo era na minha cabeça. Depois um líquido quente nas pernas, meu gozo, meu sorriso, o abraço forte - tudo depois, depois que voltei de lá.

Já na cama, lado a lado. Eu pensava: ¿não, não vamos dormir agora¿. Então, ela sem encostar em mim, pediu : ¿Fala alguma coisa, qualquer coisa no meu ouvido!¿. E eu vasculhando minha cabeça, pensando exatamente no que ela quer. Seria uma história safada com cenário, personagens, e fabulosos feitos? Qual cenário, quais personagens, o q? ¿Não vai dizer nada? Eu vou dormir então!¿ E virou nua na cama.

Não havia outro jeito senão falar algo, qualquer coisa. E no escuro mesmo procurei seu ouvido. E disse. Disse da sua beleza, do que queria fazer com ela, por onde começaria a toca-la, o que ela sentiria. Mordisquei a orelha, passei a pontinha da língua. Senti que ela gostava, só então encostei completamente em suas costas. Sem parar de falar, desci minha mão pelos seus seios - sem saber como prosseguiria.

Mãos desceram. Procurei sua boca - a senti minha. Uma sensação de domínio, um desafio que emanava dela, e só dela. Na próxima cena, não sei como, estou sentada em cima dela. Mão a fazendo ficar molhada, inclinada para continuar lhe falando no ouvido. Meus seios em suas costas. Pernas dela se abrindo, quadris se movimentando, bunda se arrebitando ¿ e eu ali, literalmente, cavalgando ma femme.

Sinto-a quente, molhada. Rosto modificado pelas sensações (tesão?) : olhos entreabertos, boca que hora sorria, hora se abria pra gemidos calados, hora soltava gritinhos. Meu dedo desliza para dentro dela, presto atenção na sua reação. Não há como descrever estar dentro de quem se ama: tatear, sentir-la por dentro também.

Eu a cubro completamente com o meu corpo. A provoco, a chamo de ¿minha putinha linda¿, arriscando e sem saber o que poderá acontece. E ela enlouquece! ¿Minha putinha quer gozar é? E se eu não quiser?¿ . Tiro a mão. Tenho o domínio, posso ler seus olhos. Não posso mais segura-la, a sinto mais um pouco. Seios, rosto ardente, pernas, músculos se contraindo. E, finalmente, encontro o tal ponto, o ponto que a faz sentir, o ponto que a faz gozar.

Nós duas, a abraço forte, ela enterra sua cabeça no meu ombro e chora. Essa mulher que tem toda força, chora em meus braços e pede minha proteção. Silêncio. Digo: ¿Você ta completamente chapada, linda! ¿. Silêncio, sorisso mais lindo do mundo. ¿ Eu nunca vi alguém assim.... por isso¿. Mais sorriso, ela tão leve me diz: ¿É você! ¿.
Luka Os outros


26.1.06

Puramente Ficção

Naquele dia resolveu jogar, mesmo não gostando. Sempre lhe disseram que se seguisse as regras e apenas jogasse,como todos, seria mais feliz.

E fazia parte das regras não ficar triste. Podia ser séria, e até amargurada, mas nunca triste. Pensar em ¿demais¿ ou ¿filosofar¿ também. Fazia parte das regras estar sempre ocupada, assim dormiria melhor á noite. Fazia parte ter gente- amigos ¿ ao seu redor. E era mandatório ter uma relação amorosa duradoura. Precisava ir á lugares, ver e fazer uma porção de coisas. Era necessário competir. Era primordial ser melhor que todos- ¿o melhor possível¿. E era justo, apenas justo, ter fé em algo ¿maior¿.
Um jogo quase fisio-matemático, regido pelas leis da estatística e da ¿ação e reação¿.

E ela jogou direitinho o jogo da vida ( ê clichê desgraçado!).

Até que numa manhã de domingo, tomou várias pílulas e entrou na banheira cheia. O marido chegou após algumas horas, e já a encontrou morta. Sem uma carta, um bilhete- algo que pudesse ser entregue como explicação á filha quando esta fosse adulta. Sem motivos.

Um vizinho, já carcomido, comentou : ¿- Aí está uma verdadeira suicida¿.
Luka Os outros


20.1.06

Para sair, drama em 9 atos.

1º.: regata, calcinha, meiões de futebol roubados.
2º. : camisa de manga e ceroula térmicas- fico parecendo um mergulhador.
3º. : Calça jeans e camisa de manga comprida.
4º.: outra meia, malha....e óculos
5º. : casaco e sapatos de neve.
6º.: Sair de casa. Procurar chaves nos trilhões de bolsos, fechar porta e corrente, guardar chaves. Chamar Elevador.
7º.:Gorro e cachecol.
8º. : Fechar zíper, abotoar, grudar velcros do casaco. Colocar gorro do casaco. Colocar luvas.
9º. : Sair do prédio.

Bônus: Conseguir combinar as cores de todas essas roupas

Luka Os outros


7.1.06

Nunca tentei escrever e explicar o porquê de eu não gostar de morar no Canadá. Aí vai:

Sim, o Canadá é um país de primeiro mundo. Mas também tem vários problemas, principalmente aqueles relacionados á cidades grandes. Não, eu não vim para cá em busca do paraíso terrestre.
Aliás, não gosto quando pessoas fazem criticas demasiadamente duras ao Canadá, como também não gosto de quem adota a postura de que tudo aqui é lindo e maravilhoso.

Os canadenses. Primeiro que o ¿canadense¿ não é mais só branco e anglo ou francofônico. O canadá sempre recebeu muitos imigrantes, então existem famílias e comunidades que estão aqui á 4 ou mais gerações.
É muito difícil pra eu generalizar, e dizer que o canadense é assim ou assado. Mas sim, a cultura aqui é diferente. As pessoas são diferentes. E para alguém cronicamente tímida como eu, fica muito mais difícil fazer contato com as pessoas.

O inglês. Meu inglês é fluente sim, só que é a minha segunda língua- e sempre será. Simplesmente não é a mesma coisa que falar o português, embora as vezes prefira falar o inglês.

Só que o Canadá não é o Brasil, e nem eu quero viver aqui como se estivesse lá. Faço questão de não viver num gueto. Até porque guetos tendem a ser imitações muito pobres e limitadas do país original.

Adoro a tal cultura brasileira. Ligar o rádio e poder ouvir musicas em português e inglês. Teatro, cinema , tevê com temas que, ás vezes, me tocam mais fundo. Ter uma ótima noção de quem é quem. Conhecer a cidade onde nasci e cresci. Livrarias inteiras em português. A história e os costumes que eu tenho uma noção melhor. Não ter que explicar coisas básicas, porque quem está do seu lado já as tem por garantidas.

Odeio ser ¿estrangeira¿, não me misturar direito. Ao mesmo tempo em que tenho muito orgulho de ser brasileira. Odeio saber que, para quem quer ser preconceituoso, o simples fato de eu ter nascido e crescido no Brasil já é motivo para me rebaixar. Ninguém tem nada a ver com isso, certo? Mas sempre é doloroso ser classificada, ainda mais em linhas tão gerais como nacionalidade ou etnia.

Não gosto de morar no Canadá porque aqui não é o Brasil. São saudades que não vão passar com o tempo, é uma falta que não vai desaparecer se eu me ¿canadiarizar¿.

Sim, eu sei que o Brasil não vai ser o mesmo de quando morei lá: mudou o país, e eu mudei. Sei que quando voltar , não voltarei no tempo- não vou recuperar minha casa, não vou ter o mesmo contato que tinha com meus amigos do colegial( de que sinto muita falta!).Sei que não serão férias. Sei que vou me desencantar um pouco.

Pensei que não fosse me sentir mais ¿em casa¿ em Sampa dessa ultima vez que voltei. Me surpreendi. Tive momentos de tédio, muita rotina, sim.Mas era mágico saber que todos á minha volta falavam português, que sabiam da novela das oito, e que( com sorte) tinham almoçado arroz e feijão. Passado esses ¿básicos¿ , me sinto muito mais incentivada a conhecer as características mais importantes das pessoas ao meu redor.
A cidade que eu conheço e entendo, onde me misturo.
(continua num próximo post)

Luka Os outros