
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
Vê-la desfiar seu fio,
Que também se chama vida,
Ver a fábrica que ela mesma,
Teimosamente, se fabrica,
Vê-la brotar como há pouco
Em nova vida explodida;
Mesmo quando é assim pequena
A explosão, como a ocorrida;
Mesmo quando é uma explosão
Como a de pouco, franzina;
Mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.
(J.C.de Melo Neto)
Nick: Luka
Gênero: Mulher (tá)
Idade: 23 anos
Moro: Toronto, Canadá
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É dificil defender, só com palavras, a vida
16.10.05
Arrumando o Quarto (III)
Ter
É difícil se desprender. Bah, aquela história de ¿não se apegar á coisas materiais¿, pra mim, soa como coisa de quem sabe que no momento que quer poderá ter ou comprar novamente tudo o que quiser. Sim, concordo plenamente que pessoas e relacionamentos são mais importantes que objetos , e que não vale a pena sacrificar pessoas e situações para ¿ter¿ coisas materiais.
Foi doloroso para mim me desprender de coisas e do lugar que fizeram a minha infância- sabendo que simplesmente não havia mais volta. E , sim, hoje vejo que consegui viver muito bem sem muitas das ¿tranqueiras¿ que tinha nessa época. Talvez , a saudades que sinto não seja de um lugar ou de objetos, mas de uma época, de tudo que foi vivido ali. Nos primeiros tempos aqui no Canadá, era comum procurar e realmente sentir a necessidade de algumas coisas que nos desfizemos na mudança.
Coisas materiais não são importantes? O caramba que não são! Ter, as vezes, torna sim a vida mais fácil, menos estressante. Um exemplo, próprio, é a minha sala. Ela simplesmente não tem lâmpada no teto. Quando não tínhamos os 6 abajures, ela se tornava praticamente inabitável quando o sol se punha. Outro exemplo, é o caso dos livros. Passamos um bom tempo sem estantes. E o que acontecia? Eu simplesmente era soterrada quase toda semana por livros. São exemplos bestas, mas acho que ilustrei o ponto.
Vejam, não sou materialista. Estou pouco me importando com o status que ¿ter¿ representa. Precisar mesmo, a gente precisa de muito pouco. Outras coisas tornam a vida mais confortável, e outras até mais divertida. É quase impossível não atribuir um valor sentimental á alguns objetos materiais - e tenho até medo de quem não faz isso. E, é claro, existem coisas que são verdadeiramente um desperdício.
Luka
Os outros
12.10.05
Arrumando o quarto(II)
Tenho um espaço que é só meu. Sem portas, nem janelas. Meio escuro, quentinho, e não muito grande. Ali está tudo que me é caro, inclusive o que já perdi ou não existe mais. Nas estantes, livros e demais materiais escritos- mas não as versões oficiais, e sim como eu me lembro delas. O mesmo com musicas, figuras e vídeos. Uma velha banheira e uma cama com o meu edredom azul de estrelinhas douradas.
Entre uma estante e uma parede, existe um baú que ruge, grita, sussurra e chocalha -apesar das inúmeras trancas e pedras pesadas que lhe seguram a tampa. O baú guarda tudo o que ainda não consegui perder, memórias que preferia não ter.
Também há uma velha tevê preta e branca e cheia de chiado, onde posso assistir o que está acontecendo com o meu ¿outro eu¿- aquele que teve que ficar lá fora, no mundo. Raro alguém real ou alguma criatura da minha imaginação aparece por lá.
Não preciso nem fechar os olhos para estar nesse lugar. Só que as vezes, o espaço se transforma. As vezes ele está nas profundezas inexploradas do oceano: então posso sentir o balançar do oceano, e ver os peixes-monstros. Ou é um esconderijo num gueto, e posso ouvir bombas e gritos lá fora. E, quando estou com sorte, o lugar é uma ilha tropical virgem.
Luka
Os outros
Arrumando o quarto (I)
Eu carrego bagagem. Sentimentos, experiências, pessoas e coisas que sempre levo comigo. Não sou uma lousa em branco. Aliás, desconfio de quem nega seu passado- o que esconderão essas pessoas ¿livres¿? Meu passado me protege: me resguarda de repetir dores, me acalma com certezas antigas e me alegra com restinhos de esperança. Claro, memórias podem ser reconstruídas e reinventadas- mas o que já vivi ainda me é mais real que o futuro, que é impalpável, e do que o presente, que ainda não tenho dados suficientes para interpretar.
Luka
Os outros
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